José Serrano, economista e gestor, é um dos convidados do debate que a Associação Cívica promove na próxima sexta-feira. Ao Jornal de Espinho, o também comerciante falou do estado do comércio em Espinho, dos seus principais problemas e das soluções mais viáveis. O estacionamento é, sem dúvida, para o economista, o grande problema da cidade até porque é, hoje em dia, um bem essencial.
Jornal de Espinho - Qual é o estado do comércio em Espinho?
José Serrano - É francamente mau dada a falta de estacionamento e o excesso de oferta. Estamos cercados por grandes superfícies, com estacionamento abundante e gratuito. Sem resolvermos o problema, não vamos conseguir competir com eles. Veja só: Quem iria aos centros comerciais se não houvesse estacionamento suficiente, ou se fosse limitado no tempo e ainda por cima pago a 80 centimos por hora, como vai ser aqui em Espinho?
Aqui foi concessionado um parque de estacionamento subterrâneo a privados, mediante contrapartidas excessivas, e que prejudicam a cidade. Será difícil vir cá sem pagar, devido à extensão abrangida por parcómetros. Os poderes públicos não deviam encarar o estacionamento como uma fonte de receitas, seja para quem fôr, gerando neste caso a particulares, rendimentos durante 50 anos. Vão construir apenas um parque de 200 lugares na zona do Multimeios, e condicionam a construção de um segundo, no largo da igreja, com 100 lugares, se a taxa de ocupação não for de 80 por cento no primeiro, o que é difícil de atingir devido ao número de horas mortas que tem qualquer parque pago.
Assim, para construir esse único parque com 200 lugares num local onde hoje estacionam gratuitamente cerca de 140 viaturas, dá-se à exploração por 50 anos o mesmo, e uma área da cidade com mais de 1000 lugares de estacionamento. Em termos líquidos temos um aumento efectivo de 60 lugares.
JE – Acredita então que o estacionamento é o grande problema do comércio em Espinho?
JS – Sem dúvida, porque sem estacionamento as pessoas não vêm cá. Tem que ser encarado como um serviço de primeira necessidade. Quase todas as famílias têm o seu automóvel, e os transportes públicos não são solução.
JE – Mas há mais?
JS – Sim. Esta requalificação urbana foi mal sucedida, não foi muito bem pensada e foi pior executada, quer em termos de materiais, quer em termos de soluções. Causa demoras no trânsito com problemas de circulação desnecessários. Diria que desincentiva as pessoas de virem cá.
Outro problema que temos é a falta de limpeza e o desmazelo que a cidade apresenta.
Ao nível da segurança precisamos de ter mais polícia na rua, visíveis, tal como nos centros comerciais têm os seguranças.
A juntar a tudo isto temos muita pouca ou quase nenhuma animação exterior e uma clara falta de informação da que existe.
JE - Em Espinho trocaram as as ciclo vias por zonas de estacionamento. Concorda?
JS – Nós não temos tradição de andar de bicicleta, e os paralelipípedos ainda existentes são pouco convidativos a isso. É evidente que estéticamente é melhor não ter carros à superfície, mas para isso ser viável precisamos de alternativas subterrâneas. Ora, se não existem, não se podem começar as coisas ao contrário. As ciclovias não deverão ser activadas sem haver alternativas sérias de estacionamento.
A Câmara parece não ter capacidade financeira para fazer um parque de estacionamento, por isso, entregou-o a privados. Actualmente as Autarquias ficam com 5% do IRS pago pelos residente, e este ano mais de 40 Concelhos resolveram minorar a carga fiscal dos cidadãos como tentativa de fixar os residentes ou atrair novos. Como Espinho não o fez, poderia financiar o(s) parque(s) de estacionamento subterrâneo com dois por cento dessa receita de IRS, o que juntamente com a exploração dos parquímetros nos cerca de 400 lugares da zona central da cidade, permitiria uma receita anual na ordem dos 500 mil euros. Esse valor daria para pagar em cerca de três anos a construção de um parque de estacionamento de 200 lugares.
JE - Em tempos chegou a falar-se em transformar a zona nobre do comércio em Espinho que é a rua 19, entre a rua 8 e 20, num grande centro comercial. Acha que um projecto desses poderia trazer alguma mais valia a Espinho?
JS – Essa zona já é um centro comercial devido à concentração de lojas existente (mais de trezentas), faltando-lhe todavia os elementos já mencionados. Se compararmos, o Gaiashoping tem metade das lojas dessa área, e oito vezes mais estacionamento. Há quem defenda a existência de uma cobertura para essa zona, o que não me parece essencial, pois não temos intempéries frequentes. Não é pela falta da cobertura que não vem mais gente cá, e tenho dúvidas do seu real interesse, da solução estética e do custo enorme desse investimento. Mais importante é que venha a existir o estacionamento subterrâneo ao longo do enterramento da linha prometido para essa zona, não se sabendo ainda como será financiado.
JE - Que importância tem o enterramento da linha-férrea para os comerciantes?
JS - Tudo depende do projecto a realizar à superfície. Pode ser uma oportunidade perdida, ou não. Do meu ponto de vista a sua extensão foi insuficiente, pois devia cobrir toda a cidade. A população dos extremos urbanos vai sofrer muito com os muros na sua frente, ficando pior. A parte central da cidade poderá beneficiar se houver um projecto interessante com áreas de lazer apetecíveis, a serem talvez articuladas com o Casino de Espinho. Se este vier a ter a entrada principal virada para a cidade como se prevê, seria interessante por exemplo que a animação de qualidade do seu bar realizasse uma sessão musical semanal (aos fins de tarde de Sábado), num palco aberto virado para a cidade. Divulgava a ideia de que acontecem coisas interessantes na cidade e que vale a pena cá vir. Essa periodicidade e esse horário, davam também uma oportunidade ao comércio local antes do show, e à restauração e ao Casino.
Não devemos esquecer também do que vamos transmitir a quem passa dentro do túnel, embelezando-o, e por exemplo forrando-o com a imagem que antes se via da cidade .
Contudo se não houver ideias nem boas soluções, o enterramento pode ser o culminar de uma sucessão de más apostas e de maus investimentos em Espinho.
JE - O que pensa sobre a feira?JS - A feira traz gente a Espinho e isso é importante. No entanto acho excessivo o número de feiras existente. Devia haver apenas a de segunda-feira.
JE - A instalação de uma superfície comercial em Espinho pode trazer beneficios para o concelho?
JS – Não, o País está saturado de centros comerciais. As cidades estão a ficar desertas, sem movimento, porque não estavam preparadas para esta invasão. Um centro comercial na periferia de Espinho vem agravar os problemas do comércio local. De nada serve pensar nos benefícios da criação de postos de trabalho, pois por cada um que aí se cria perdem-se quatro no comércio tradicional. De nada serve para a Autarquia os rendimentos que vai obter a curto prazo, se a médio prazo os vai perder no restante comércio local, que vai sofrer as consequências dessa abertura.
Ao ficar na periferia, as pessoas dos arredores deixam de vir ao centro da cidade se as lojas dessa área comercial satisfizerem razoávelmente as suas necessidades, e porque aí terão o estacionamento abundante e gratuíto que não têm no centro. Não vejo o que poderá trazer de bom na realidade, pois promove a desertificação do centro da cidade. A população em Espinho tem diminuído considerávelmente, e não há consumidores nem consumo para a quantidade de estabelecimentos que existem; nos últimos 13 anos abriram 15 centros comerciais num raio de 20 km, num total de mais de 1.500 lojas.
Sem o consumo mínimo necessário, não se geram os rendimentos que permitam aos comerciantes fazer bons e actualizados estabelecimentos para a população deles poder usufruir.
JE - Considera que há falta de um movimento mais dinámico dos comerciantes?
JS - Os comerciantes estão muito desmoralizados, porque o negócio está pior. A classe é muito individualista, difícil de mobilizar, tem um sentimento de impotência individual para lutar contra este estado de coisas, e algum descontentamento em relação à performance da Associação Comercial, que sózinha também não conseguirá milagres. Infelizmente a ida do presidente da Associação Comercial para a Câmara não trouxe nada de positivo que se vislumbre.
JE - Acha incompatível o cargo de presidente da Associação Comercial e Assessor do presidente da Câmara?
JS - Acho que promove uma certa promiscuidade e dificulta a defesa dos interesses dos comerciantes quando estes não coincidem com a visão da Câmara.
Maria João Magalhães