São seis horas de viagem das Astúrias até Espinho e, todas as semanas, perto de uma centena de espinhenses faz o longo percurso de ida e de volta. Emigraram para o país vizinho em busca de um emprego e de uma vida melhor e estão a consegui-lo, graças a José Marco Rodrigues. O empresário é natural do Bairro da Marinha, em Silvalde, e há sete anos atrás também optou por partir para a Espanha. Hoje, é o exemplo perfeito de como um emigrante português conseguiu ser bem sucedido em terras de nuestros hermanos e tornou-se num dos maiores empregadores da população espinhense. A sua empresa, Construcciones Edibrick, é a maior empresa de um português registada em Espanha.As tardes de domingo no Bairro da Marinha, em Silvalde, poderiam ser iguais aos restantes dias da semana, mas não o são. Paira no ar uma agitação que transparece nas expressões daqueles que aproveitam o dia para poderem estar na rua, conversando com os familiares e com os amigos. À medida que os minutos vão passando e o meio da tarde se aproxima, a paisagem do bairro começa a alterar-se.
Nos passeios de uma das ruas principais, os sacos de viagem e as arcas de transporte de alimentos vão aparecendo, assim como o número de pessoas vai aumentando. Pouco a pouco, começam a estacionar várias carrinhas de matrícula espanhola e o que ocupava inicialmente os passeios passa a encher as malas das viaturas.
O Bairro Piscatório assiste todas as semanas à partida de cerca de uma centena de homens, que deixam a família e rumam até às Astúrias. Além de terem o mesmo destino e a mesma profissão como trabalhadores da construção civil, estes homens partilham em comum o mesmo patrão, José Marco Rodrigues, de 30 anos, natural do bairro e proprietário da empresa espanhola Construcciones Edibrick.
Emigrante bem sucedido
José Marco, como é mais conhecido no Bairro da Marinha, é o exemplo perfeito de como um emigrante português conseguiu ter sucesso em terras de nuestros hermanos. Antes de ir para Espanha, há sete anos atrás, o agora empresário já estava envolvido na área da construção civil: “Comecei a trabalhar na zona do Porto com uma carrinha e quatro funcionários, que passaram para os 16”. Aos 23 anos, uns espanhóis seus conhecidos propuseram-lhe trabalho no país vizinho, mas José Marco não aceitou de imediato. “Eu, na altura, tardei cerca de sete meses a dar a resposta porque tinha casado recentemente, era complicado sair do país, as pessoas não queriam deslocar-se e ainda havia muito trabalho em Portugal”, esclareceu.
Decidiu, porém, arriscar uma nova experiência, mas sempre com calma: “Quando fui para Espanha, levei apenas quatro trabalhadores para ir devagar, até porque a língua e a maneira de trabalhar eram diferentes”. Dividido entre trabalhos e constantes viagens entre Portugal e Espanha, José Marco optou por colocar os trabalhos em Espanha em primeiro lugar.
Para o espinhense, a aposta foi ganha, já que a sua empresa não parou de crescer desde então. Há quatro anos, para evitar o excesso de burocracia e de documentos provocado pelo facto da empresa ser portuguesa, José Marco decidiu montar a Construcciones Edibrick, que é espanhola. Os seus trabalhadores recebem os salários e pagam os impostos no país vizinho, têm bilhetes de identidade espanhóis e terão direito um dia a reformas também espanholas.
O empresário tem noção da dimensão que a Construcciones Edibrick está a ganhar: “tenho consciência que represento uma das maiores empresas da região. Na construção civil, devo mesmo ser o maior empresário aqui nesta zona”. José Marco tem a seu cargo 134 funcionários. Perto de uma centena é do concelho de Espinho, espalhados por todas as freguesias. Só de Espinho partem semanalmente 12 carrinhas, que os transportam até às Astúrias. Depois, sai também todos os domingos uma carrinha com nove homens de Castelo de Paiva e outra de Esposende.
No início da sua carreira, José Marco tinha dificuldade em arranjar trabalhadores, por ser novo e ter pouca experiência. Hoje em dia, a realidade é totalmente diferente. “Pouco a pouco, fui ganhando a confiança das pessoas daqui e dos arredores e todas as semanas me pedem trabalho”. E o espinhense tenta sempre ajudar as pessoas que vão ter com ele à procura de novas oportunidades, dando-lhes emprego e boas condições de trabalho.
Viver com dignidade
Em Espanha, José Marco aluga o alojamento para os seus trabalhadores. Optou por apartamentos de tipologia T3 e em cada um vivem seis homens, dois por quarto. “Pessoalmente, acho que as pessoas têm que viver com dignidade. Há casos em que se vêem 15 pessoas no mesmo apartamento. Não são condições dignas para se poder viver, para tomar banho, para comer…”, esclarece. Além da residência, o empresário paga ainda a água, a luz, as carrinhas, o combustível e as portagens, para que os seus trabalhadores possam vir todas as semanas visitar as famílias a Portugal. Os funcionários da Construcciones Edibrick têm apenas despesas com a alimentação.
Em média, os salários de quem trabalha na construção civil em Espanha são muito superiores ao que se aufere na mesma área em Portugal. José Marco confidenciou ao Jornal de Espinho que os seus trabalhadores ganham mediante o cargo que ocupam: “Um servente, que cá é moço de trolha, pode ganhar uma média de 1100 euros, dependendo da pessoa. Os artistas, que lá chamamos de oficiais, podem ganhar 1250, 1500 euros por mês de média”. “São esses os salários médios líquidos que eles ganham e que trazem para as suas famílias”, esclarece o empresário.
São muitas as pessoas que estão constantemente a agradecer o que José Marco tem feito para ajudar os habitantes do concelho, algumas delas políticos conhecidos. Também a população do Bairro da Marinha já, por várias vezes, quis homenageá-lo: “Vários representantes do bairro já vieram ter comigo para me agradecerem com pequenos gestos e até queriam fazer-me uma estátua”. José Marco recusou o convite, pois acredita que tudo virá no tempo devido. No entanto, reconhece que não houve até então nenhum contacto por parte da autarquia ou mesmo de José Mota para lhe dar umas palavras de apreço.
Emigrante há sete anos, José Marco tem a certeza que o seu percurso profissional passará sempre por Espanha. A sua mulher e o seu filho Gonçalo, de apenas 5 anos, mudaram-se para lá há cerca de dois anos e a adaptação foi boa. José Marco afirma, sem dúvidas, que a sua vida passará por Espanha, mas tem a certeza que nunca perderá as raízes do local que o viu crescer.
Rumam a Espanha em busca de uma vida melhorAlguns já estão emigrados há anos, outros apenas há poucos meses. Uns estavam no desemprego, enquanto outros trabalhavam mas o dinheiro não era o suficiente para sobreviver. Por entre os 134 trabalhadores da Construcciones Edibrick, são muitas as histórias de vida. Porém, estes homens partiram para Espanha com um mesmo desejo, com uma mesma vontade: ter uma vida melhor, para eles e para as suas famílias.
Marco Fonseca tem 31 anos e já foi marceneiro e jogador de futebol. Há cinco anos, decidiu emigrar para a terra de nuestros hermanos para ir trabalhar para a construção civil: “A vida cá não estava boa e tive que procurar emprego no estrangeiro”. Até hoje, “a experiência tem sido recompensadora e o ordenado em si também é bom”, se bem que “a vida de emigrante custe um pouco”.
Já Beto Esteirinha está nestas andanças há um mês e meio. Antes de emigrar, era calceteiro principal na Câmara Municipal de Espinho, mas as dificuldades económicas fizeram com que pedisse um ano de dispensa e partisse para Espanha, país que adora. As saudades da família são muitas, mas o espinhense reconhece que, para viver, a melhor opção foi a que tomou. E acrescenta: “Se eu pudesse, ficava lá toda a vida, não voltava mais cá a Portugal. Até porque aqui em Portugal, os ricos cada vez são mais ricos e os pobres cada vez são mais pobres”.
António Venço trabalhou por conta própria na construção civil durante 25 anos: “Era patrão, já tive cerca de 30 empregados, mas não se ganhava para os impostos”. Há três meses, passou de empregador a empregado. E, diz, se soubesse já teria ido para Espanha há mais tempo. “Para mim, não é uma vida dura, e até é melhor que em Portugal, com as condições que o patrão nos dá. Posso dar uma melhor vida à minha família”, realça.
Por sua vez, José Soares, de 49 anos, optou por trabalhar em Espanha há mais de cinco anos, sempre para o mesmo patrão, José Marco. O trabalhador diz maravilhas do seu empregador: “Tem feito tudo por nós, faz tudo para que não nos falte nada, para que tenhamos lá uma vida boa, para que tenhamos todas as condições de trabalho”. José Soares não tem nenhuma razão de queixa e, embora já tenha tido outras propostas de trabalho mais vantajosas, nunca quis mudar.
Outro dos veteranos da Construcciones Edibrick é José Fonseca, de 37 anos. Antes de ir para Espanha, há três anos e meio, José Fonseca tinha já estado em Inglaterra e em França. O país vizinho tem, na opinião deste homem, mais trabalho, melhores condições e fica mais perto. José Fonseca ocupa o cargo de encarregado-geral da empresa e ajuda José Marco Rodrigues a orientar os trabalhadores.
Típica saudade portuguesa
A palavra saudade é outro ponto em comum entre todos os trabalhadores que emigraram para Espanha. Ao princípio, dizem custar muito estar longe da família, num país diferente e a seis horas de viagem de casa. Com o tempo e com a ajuda dos companheiros de trabalho e de casa, a adaptação torna-se mais fácil. Para as esposas, os filhos, a família e os amigos que ficam em Portugal, as saudades também são muitas, mas necessárias para uma vida melhor.
Maria de Fátima é um desses casos. Devido ao seu desemprego, o marido, Sérgio Fonseca, teve que despedir-se do trabalho que tinha em Portugal e partir para Espanha, de forma a conseguir manter a família. Todos os dias, falam ao telefone e Maria de Fátima não tem dúvidas que é um sacrifício que compensa.
José Augusto emigrou há apenas um mês e a sua esposa fica com lágrimas nos olhos sempre que tem que o ver partir. “As saudades apertam muito. Venho sempre vê-lo a partir e a chegar. Enquanto ele não chega lá, o coração fica num aperto e não descanso”, desabafa.
Construcciones Edibrick: Números e Curiosidades
14 Carrinhas com controladores de velocidade que impedem velocidades acima dos 130 km/h
Às sextas-feiras, os funcionários não trabalham de tarde
Todos os anos, os trabalhadores fazem um jantar de Natal e o patrão oferece a todos um cabaz de natal
Paga em média por mês 200 mil euros em salários, valores que dobram no Natal e nas férias
Só em gasóleo gasta 15 mil euros por mês para todos os veículos da empresa
Em alugueres e gastos diários (luz, gás e água) são 17 mil euros por mês
Pagam 70 mil euros de Segurança Social
Fazem uma média de 130 mil km por ano
Espinho lidera desemprego no Grande Porto
A terceira conferência do ciclo "Olhares Cruzados sobre o Porto", organizado pela Universidade Católica e pelo jornal Público e que abordou o tema do desemprego na região Norte, foi palco de más notícias para o concelho espinhense.
A conferência contou com a apresentação de Pílar Gonzalez, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). A docente tem vindo a estudar o tema do desemprego e, segundo informações do webjornal JornalismoPortoNet, concluiu que o Norte é a região portuguesa com mais desempregados. O problema, para Pilar Gonzalez, atinge mais as mulheres e os jovens, tratando-se assim de um desemprego que não é neutro. Para a professora da FEP, a situação tem piorado desde 2000 e o número de pessoas à procura de um primeiro emprego é cada vez maior.
Pilar Gonzalez calculou também a taxa de desemprego no Grande Porto e concluiu que o concelho de Espinho é o mais afectado pelo problema, seguido de Gaia, Valongo, Porto, Vila do Conde, Maia e Matosinhos. Para chegar a estes resultados, a docente baseou-se na população economicamente activa, registada como desempregada no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), em Dezembro de 2007.
Os comentários da conferência foram da responsabilidade de António Pires de Lima, presidente da UNICER, e do padre Lino Maia, da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS).