Com 20 meses de atraso o túnel ferroviário da obra de enterramento da linha está pronto. Apesar dos inúmeros contratempos ocorridos desde o início, o primeiro comboio, um alfa pendular, fez as honras do túnel ao início da manhã do último domingo. A nova estação abriu também ao público, com novos serviços e uma nova forma de comodidade. Resta agora esperar pela requalificação à superfície que, apesar de ter já um projecto aprovado, não tem ainda data prevista para o arranque. José Mota conquistou, assim, uma vitória que ansiava há mais de dez anos.
O dia 3 de Maio de 2008 entrou para a história de Espinho como uma data que alterou os hábitos, as rotinas e os percursos há muito instituídos na cidade. Desde as 23h00 do passado sábado, os espinhenses deixaram de ouvir os apitos estridentes dos comboios a anunciar a sua chegada, partida ou passagem pela cidade; deixaram de se preocupar em atravessar a linha-férrea com atenção e deixaram de ter que esperar que as cancelas das passagens de nível abrissem para poderem passar com os carros para o lado da praia ou no sentido inverso. Foi a essa hora que Espinho viu passar o último comboio à superfície.
Às sete da manhã de domingo, o túnel ferroviário que agora se encontra por debaixo da antiga linha-férrea, recebeu o seu primeiro “inquilino”. O Alfa Pendular, que partiu de Braga e se dirigia para Lisboa, foi o primeiro comboio a passar e a atravessar oficialmente a grande obra do século XXI, como José Mota tem vindo a apelidar ao longo dos anos.
A nova estação de Espinho e o novo túnel ferroviário abriram as portas à população por volta das 06h55 e foram vários os populares que se levantaram mais cedo da cama e que não quiseram perder este momento histórico para a vida da cidade. A passagem do Alfa Pendular pelo novo túnel foi festejada pelos espinhenses presentes assim como pelos vários trabalhadores da obra com palmas e sorrisos.
Durante o dia de domingo, apenas uma das duas linhas que constituem a Linha do Norte esteve funcional, para que alguns trabalhos de última hora fossem finalização. Entre Esmoriz e a Granja, as composições circularem numa única via, o que acabou por provocar muitos atrasos na Linha do Norte. Já na segunda-feira de manhã, o tráfego ferroviário voltou à normalidade e os comboios passavam pelas duas linhas.
Grande aposta de José Mota
O enterramento da linha-férrea na cidade é uma ideia com alguma longevidade. O presidente da Câmara Municipal, José Mota, assumiu-se sempre como o maior impulsionador e defensor da “obra do século” e, desde 1995, lutou para que o projecto fosse avante. No entanto, o PSD, que esteve no poder antes do Partido Socialista, reivindica para si a “paternidade” da ideia.
Polémicas à parte, foi José Mota que convenceu João Cravinho, na altura ministro das Obras Públicas do primeiro governo de António Guterres, a dar o sinal positivo para o arranque da empreitada. Com o aval de João Cravinho, ficou também decidido que, do orçamento de 60 milhões de euros, o Estado comparticiparia com 40 milhões e a autarquia espinhense pagaria os restantes 20 milhões. Cinco milhões estão guardados para a requalificação urbana do espaço deixado livre à superfície.
As obras começaram em 2004 para criar um túnel subterrâneo com um comprimento de 954 metros. O rebaixamento das duas linhas estende desde o quilómetro 315,775 até ao 317,725 da Linha do Norte, numa extensão de quase dois mil metros. No total, a intervenção a nível ferroviário na cidade de Espinho fez-se num comprimento de 3750 metros, desde o quilómetro 314,950, junto ao apeadeiro de Silvalde, até ao quilómetro 318,700, próximo do lugar de Juncal.
Durante os quatro anos de execução das obras, a cidade viu-se alvo de muitas alterações, polémicas e problemas. Recorde-se que, para o enterramento da linha-férrea, a histórica estação de Espinho foi demolida e foi substituída por uma provisória implantada nuns pré-fabricados e ainda que as famosas palmeiras da Avenida 8 foram transplantadas para a Avenida 32. Até os históricos azulejos que retratavam a vida e as gentes da cidade de antigamente, construídos pela mão de Romeu Vitó, na altura presidente da Junta de Freguesia de Espinho, foram destruídos como consequência da obra que fechou a passagem subterrânea em frente ao Casino.
Além disso, a zona envolvente à linha-férrea começou a sofrer com os trabalhos. Os habitantes da zona queixaram-se muitas vezes do barulho das obras que decorriam dia e noite; os rebentamentos das pedreiras subterrâneas causaram muitos sobressaltos e a constante circulação de veículos pesados danificaram as estradas nos locais mais críticos. O emblemático pontão perto do Rio Largo, que unia pelo ar a parte este ao lado oeste da cidade e que era muito utilizada por aqueles que não queriam esperar que as cancelas abrissem, principalmente na altura balnear, foi cortado e teve como alternativa uma nova passagem de nível, de apenas um sentido, na Rua 15. Quem não se lembra também dos protestos dos habitantes do Bairro da Marinha, que viam nas paredes de betão entretanto criadas para protecção das vias uma forma de criar guetos na cidade?
As situações em redor da obra do século fizeram muita tinta correr nos jornais e muitos foram os transtornos que se somaram ao longo destes quatro anos de obra. Agora, finalmente os espinhenses podem ver os seus frutos. Com quase 20 meses de atraso, o novo túnel e a nova estação já estão em funcionamento e as obras relativas ao rebaixamento da linha-férrea devem ser dadas como concluídas no final de Junho.
Menos trânsito, mais qualidade de vida
Apesar de alguns espinhenses defenderem que Espinho sem comboios é como “um jardim sem flor”, outros há que acreditam que este projecto agora finalizado tem muitas vantagens. Opinião idêntica é a de Susana Abrantes, da Direcção de Comunicação e Imagem da Rede Ferroviária Nacional (REFER). Em declarações ao Portugal Diário, Susana Abrantes expressa que, para a REFER, a obra de enterramento da linha-férrea é uma mais-valia para Espinho.
A redução do ruído acústico é uma das consequências desta obra. Recorde-se que, aquando da implantação da estação provisória, cujas passagens de nível tinham avisos sonoros muito acentuados, muitos foram os moradores que se mostraram incómodos. Agora, pelo menos no centro da cidade, o barulho causado pelas três passagens de nível existentes está extinto. A poluição sonora causada pelo próprio passar dos comboios por Espinho deixou também de existir, promovendo assim uma melhoria da qualidade de vida dos habitantes da cidade.
Também o trânsito vai, com o desaparecimento dos comboios à superfície, sofrer alterações. As filas que se criavam quando as cancelas estavam fechadas deixaram de transtornar os automobilistas, o que vai mostrar útil para a época balnear que se aproxima.
Requalificação à superficie
Depois da obra de enterramento da linha-férrea ficar concluída em finais do próximo mês, devem seguir-se as obras da requalificação do espaço deixado livre à superfície. Já é público que Rui Lacerda foi o vencedor do concurso de ideias para a elaboração do projecto de reabilitação da superfície. O arquitecto espinhense projectou, para aquele espaço, uma espécie de rede esticada constituída por módulos, que poderão ser preenchidos com diversos materiais (como madeira, pedra ou água e espaços verdes). O espaço poderá depois receber cafés, parques infantis, galerias, parques de estacionamento, entre outras possibilidades.
Apesar de já ter sido anunciado o vencedor, o projecto da requalificação da superfície deixada livre pelo rebaixamento da linha-férrea ainda é tema de polémica, como aconteceu na última Assembleia Municipal.
Vicente Pinto, vogal do PSD, recordou na última assembleia municipal que, em 2006, os vogais aprovaram um documento apresentado pelo PSD que propunha um concurso de ideias internacionais para a requalificação da superfície da obra de enterramento da linha-férrea. Qual o seu espanto quando, na passada semana, leu na comunicação social que o concurso já foi lançado, aprovado e que já há, inclusive, um vencedor. Vicente Pinto mostrou-se indignado pelo facto de a Assembleia Municipal não ter sido ouvida sobre o assunto, e ter tido apenas conhecimento do caso pelos jornais.
Graça Guedes, presidente da Assembleia Municipal, aproveitou a oportunidade para responder e explicou que a autarquia aprovou em reunião de Câmara o referido concurso. Acrescentou ainda que o presidente da Câmara, José Mota, deu a conhecer à Assembleia o decorrer do concurso. A presidente explicou que ela própria fez parte do júri, “como representante da Assembleia Municipal” e sugeriu que se fosse marcada uma sessão extraordinária da assembleia para que o arquitecto ganhador pudesse apresentar a sua proposta a todos os vogais.
Interface voltado para o futuro
O dia três de Maio vai ficar ainda marcado na história da cidade pela inauguração da nova estação de Espinho. Situada em frente ao edifício Palmeiras, em plena Avenida 8, a nova estação encontra-se adequada às exigências dos novos tempos, tendo presente o conceito de inter modalidade projectado numa infra-estrutura futurista.
Do lado de fora, o edifício, vestido de cinza e castanho, destaca-se na paisagem e confere ao centro de Espinho uma imagem de modernidade. Do lado de dentro, que os passageiros têm acesso através da Avenida 8, o primeiro andar está equipado com máquinas de venda de bilhetes, e postos andantes, assim como bilheteiras com serviço personalizado. Os passageiros podem ainda ter acesso a um quiosque à semelhança e a um posto Multibanco.
Mas a grande mais valia da nova estação é a comodidade que vai oferecer aos passageiros. Se antes, quem esperava pelo comboio estava sujeito à chuva e ao frio, agora a situação é bem diferente, pois a interface é subterrânea. O acesso à plataforma da linha é feito através de escadas rolantes e à semelhança de grandes estações ferroviárias, os passageiros podem saber, através de painéis electrónicos, quando é que vai chegar o próximo comboio, e qual o tempo de espera.
Lília Marques