São poucos os que imaginam que, em pleno século XXI, no coração do Bairro Piscatório de Silvalde, ainda se pode viver numa miséria total. No entanto, é assim que vive, há 20 anos, António Cântara, numa casa junto dos armazéns da Companha dos Pescadores que muito poucos se atreveriam a chamar de lar.
O pescador silvaldense de 57 anos abriga-se do frio, da chuva e da noite num espaço que, no máximo, atinge os cinco metros quadrados. As paredes são, na sua maioria, bocados de madeira e de chapa unidas umas às outras. O pouco tijolo que se vê foi posto por António Cântara, numa altura em que trabalhava numa empresa de construção civil.
Como o Jornal de Espinho verificou no local, a “humilde” casa, mesmo sendo de exíguas dimensões, tem duas divisões: a primeira é, simultaneamente, o hall de entrada e a cozinha; a segunda serve de quarto, de sala de estar e de quarto de arrumações... O espaço contém uma cama de solterio em ferro, um frigorífico, uma pequena televisão e muitas canas de pesca pendem do tecto, onde se vêem também inúmeros fios de extensões eléctricas e uma lâmpada, sem qualquer candeeiro.
Desengane-se quem pensar que o lar do silvaldense possui electricidade ou água. O primeiro serviço é “oferecido” pelos armazéns vizinhos; o segundo, António Cântara tem agora que comprar se quiser cozinhar. O casa de banho é um balde, nada mais.
Àquilo que o pescador chama de lar, a maioria das pessoas designa barraco. As poucas condições da casa são agravadas pelos muitos bichos que ali se encontram. Ratos, pulgas e outros inscetos partilham o mesmo espaço com António Cântara, que luta contra os “hóspedes” indesejados. Desinfecta toda a área da casa diariamente e os cantos têm constantemente veneno. O seu cão é um ajudante nessa tarefa e os ratos que mata são recompensados com comida e muito carinho.
Pescador quer uma casa
O silvaldense nem sempre viveu assim. Vivia em Anta, já foi casado e teve cinco filhos, que o visitam com regularidade. António Cântara teve também muitos ofícios e trabalhou em empresas míticas do concelho de Espinho, como foi o caso do Casino Solverde (que ajudou a edificar), da Corfi, ou da vizinha Cordex, em Esmoriz. Foi, no entanto, quando fez uma sociedade que a sua vida se “entortou”. O pescador passou cheques sem cobertura e foi preso, tendo estado na cadeia nove meses. Perdeu a esposa que, com vergonha, se separou dele e, quando saiu da prisão, foi viver para aquela que ainda é a sua casa.
António Cântara não pede muito. O sonho deste homem de 57 anos é ter um lar com condições melhores e já expressou esse desejo às autoridades: “Expus a minha situação na Câmara, na Assembleia Municipal e na Junta de Freguesia, mas ninguém fez nada, guardaram o meu processo na gaveta”. Sem respostas e com o desespero a ser cada vez maior, o silvaldense não se importava de ir morar para uma habitação social e pagar tal como os outros pagam. “Sou pobre e honesto, mas tenho forças graças a Deus, por isso, pagava como pagam os ciganos, dois euros, para poder ter uma casa melhor”, desabafou ao Jornal de Espinho.
O seu único rendimento é a pesca. Apesar de estar inscrito no Centro de Emprego, não consegue um trabalho, na sua opinião, devido à sua idade. Tentou também o Rendimento Social de Inserção, mas, depois de gastar dinheiro na burocracia, não foi contemplado. Na Associação de Desenvolvimento do Concelho de Espinho também não obteve ajuda. Aliás, foi-lhe dito que fosse trabalhar que “tinha bom corpo”. Sem ter mais a quem recorrer, o silvaldense sobrevive muitas vezes com as ajudas individuais, quando o dinheiro da pesca não é suficiente.
Nas construções ilegais onde vive, é o único morador. Os que lá tinham casa, foram contemplados com habitações sociais no Bairro e desocuparam o espaço. No entanto, não de desfizeram dele. Aquilo que outrora eram habitações, são agora galinheiros, situação que piora a concentração de insectos e animais no local.
Há cerca de duas semanas, e após uma queixa de António Cântara, o delegado de Saúde de Espinho, Guilhermino Ribeiro, deslocou-se ao lar do pescador. Pelo que pôde observar, o responsável concelhio pela saúde pública considerou o local insalubre e deu conhecimento, através de uma carta, da sua decisão ao presidente da Câmara Municipal, José Mota. Depois desta pequena vitória, António Cântara espera que o seu desejo seja, depois de 20 anos, concretizado.
Lília Marques