Jornal de Espinho (JE) – Estamos em plena época de saldos. Os estabelecimentos que gere também aderiram às promoções?
Joaquim Rocha (JR) – Por norma, fazemos promoções o ano inteiro, estamos sempre em promoções. Outros ramos de negócio, como as confecções, têm campanhas de grandes saldos. Mas, nos electrodomésticos, para conseguirmos acompanhar os grandes espaços comerciais, que são a nossa maior concorrência, temos que ter sempre os preços tão baixos, que são sempre promoções. Ficamos com uma margem de lucro muito reduzida, mas temos que fazer assim para manter alguma clientela que prefira comprar nas nossas lojas.
JE – Mas, mesmo assim, nesta época de saldos, conseguem vender mais?
JR – Eu costumo dizer que o negócio está mau para todos, assim como para nós. No entanto, o mês de Dezembro é sempre um mês muito bom, porque as pessoas recebem o décimo terceiro mês; está mais frio e os clientes procuram certos equipamentos que, de Verão, não são necessários; há as festas de Natal… As pessoas costumam guardar algum dinheiro para nesta época consumir mais alguns artigos e, por isso, as vendas aumentam.
JE – Em relação a anos anteriores, as vendas aumentaram, mantiveram-se ou houve um decréscimo de vendas a nível do comércio?
JR – Nas vendas normais, deveremos estar a perder uma percentagem pequena em relação a 2007…
JE – Mas isso deve-se ao poder de compra que é menor agora?
JR – Sim. As pessoas que têm mais possibilidades, quando precisam, compram. As outras que têm uma vida menos estabilizada, aproveitam esta altura para comprar mais alguns produtos. Nós, para vivermos razoavelmente, deveríamos ter todos os meses como Dezembro, porque a venda, quer para nós, quer para o comércio em geral, é sempre superior e melhor.
JE – O ramo dos electrodomésticos é um ramo que vende muito a crédito. Essas vendas aumentaram?
JR – Nós estamos a procurar fazer os preços que fazem os grandes espaços comerciais, vendendo em igualdade de circunstâncias, através de crédito bancário.
JE – Ou seja, têm empresas financeiras com quem trabalham por causa do crédito?
JR – Sim, três ou quatro. Se calhar, este ano, fizemos o dobro dos créditos bancários que tínhamos feito o ano passado. Isto está a evoluir muito, já que antigamente as pessoas custavam muito a aderir, mas agora já não. Só assim é que conseguimos vender, tal como acontece nos grandes espaços comerciais.
JE – O decréscimo de vendas, que diz ter vindo a sentir, tem a ver com Espinho? Sente que a cidade deveria ser dinâmica para os comerciantes poderem vender mais?
JR – Se, em Espinho, há alguma riqueza ou existem algumas casas domésticas que, de facto, têm algum poder de compra, isso acontece porque essas lojas estão a trabalhar fora do concelho. Espinho não tem quase riqueza nenhuma, porque não há indústria. As pessoas que vivem bem cá, trabalham fora… Em Espinho, não há nada. Se ainda há algo na cidade e no concelho, é por causa do mar, que chama muitas pessoas, às quais eu chamo a média burguesia, que já tem uma vida económica boa para fazer compras.
JE – Acha que devia haver alguma estrutura que dinamizasse mais a cidade, nomeadamente em termos de animação, como a Associação Comercial?
JR – Falar disso é complicado, mas há casos de cidades com menos capacidade, mas que fazem algo para a realidade mudar. Aqui em Espinho, não se tem feito muito, mas talvez não seja fácil fazer. No entanto, na realidade, deveria haver algo que fizesse mexer a cidade para a situação melhorar, porque Espinho chama muitas pessoas, mas é necessário haver algo diferente para chamar sempre mais gente.
JE – Com este andar, a cidade corre o risco de ver muitas lojas a fechar?
JR – Se começarmos a apercebermo-nos, se passarmos em algumas ruas e cruzamentos, já se começa a ver montras com papéis a anunciar o encerramento das casas. Os restantes estabelecimentos que continuam abertos estão-se a endividar, porque, se assim não fosse, já tinham fechado portas. Eu julgo que 50 por cento do comércio de Espinho não está a ganhar hoje para poder estar aberto. Se não houver movimento na loja, se não entrar ninguém, se à noite não houver dinheiro no caixa, a loja e a pessoa que lá trabalha não pode sobreviver. Os que estão ainda abertos, sobrevivem com dificuldade, com a ajuda de familiares, dos bancos…
JE – Está previsto abrir, no local da ex-Corfi, um grande centro comercial. É a favor ou contra a construção de grandes superfícies em Espinho?
JR – Se a situação não está boa, com os centros comerciais não ficam melhores. No nosso ramo, esses centros vieram prejudicar-nos, assim como é o caso do vestuário e supermercados. Esses locais trazem mais gente à cidade, mas que vêm ao centro e vão-se embora.
JE – Há já comerciantes que pensam sair do centro da cidade e alugar uma loja lá. Concorda com essa ideia?
JR – Nós pensamos nisso, mas não sai do pensamento. Se o centro comercial for igual à maior parte dos que existem, as rendas são incomportáveis para o comércio tradicional, que tem lojas pequenas e cujos donos são pessoas com poucos recursos.
JE – Pondera a hipótese de se instalar nesse centro comercial?
JR – Normalmente, há dois tipos de centros comerciais. Uns já têm as lojas certas e não dão hipótese a ninguém, são as chamadas lojas âncoras. Se for outro tipo e se tivéssemos a oportunidade de ocupar uma loja, para nós era muito bom, mas não é fácil.
JE – Antes do enterramento da linha-férrea, diziam que isso iria trazer benefícios às lojas que estão ali à volta. No entanto, o enterramento já foi concluído. Acha que aquele comércio foi beneficiado ou que ainda vai beneficiar?
JR – O espaço deixado livre, quando estiver preparado para receber comércio, vai ser uma maravilha e vai ser um ponto de excelência. Quem lá está agora, não sei como metade deles ainda não faliram. As obras ainda vão continuar e isso é um martírio para os comerciantes. Daqui a 10 anos, quem lá ficar, vai ter um benefício fantástico.
JE – O que é que acha que se poderia fazer em Espinho para atrair mais pessoas ao comércio local?
JR – Aqui, há à volta temos grandes espaços que nos prejudicam. Assim, não há muito a fazer. É necessário lutar, manter a clientela, dar a cara pelos produtos, um bom atendimento, agradar o cliente, ter preços baixos… Mas, mesmo assim, há muitas dificuldades e problemas para sobreviver. A cidade deverá estar limpa e evoluir mais.
JE – Se o presidente da Câmara Municipal lhe pedisse um conselho sobre a cidade, o que lhe diria?
JR – Ao presidente, não lhe digo nada porque ele já tem muitos anos de política e tem obrigação de saber o que fazer. Há que olhar para as outras cidades que têm evoluído e saber o que eles fazem. Nota-se que todas as cidades à volta de Espinho evoluíram e Espinho não.
José António Moreira