A falta de apoios para a equipa de futebol, que levou a uma redução de 50 mil euros em relação ao orçamento da época passada, tem deixado Paulo Mendes revoltado. O vice-presidente do Espinho acredita que a modalidade que dirige tem sido descriminada em benefício do voleibol e critica a postura de alguns colegas da Direcção. Além disso, alerta as forças vivas da cidade para a necessidade de viabilizar, rapidamente, o novo complexo desportivo, porque, caso contrário, poderá vir a acontecer “uma catástrofe”.
Jornal de Espinho (JE) – Como está a decorrer a preparação da próxima época?
Paulo Mendes (PM) - Vai avançando muito devagar, mas a base da equipa está construída. Conseguimos manter os jogadores que mais jogaram na época passada, à excepção do Fábio, o que nos deixa muito felizes. Temos algumas lacunas que precisamos de colmatar, mas o orçamento é demasiado curto e estamos a tratar das coisas com muito calma, porque não podemos cometer erros com consequências desportivas. Muito sinceramente, este ano, ninguém me vai ouvir a assumir uma candidatura à subida de divisão. Não o vamos ser claramente. Vamos calhar na Zona Norte, que será a zona mais complicada. Será uma mini II Liga, com nomes sonantes, como Gondomar, Vizela, Penafiel e Moreirense. O Espinho irá lutar domingo após domingo pela melhor classificação possível, mas temos a noção que, com um plantel limitado em termos orçamentais, não podemos sonhar muito alto. É o orçamento mais baixo desde que estou no Espinho. É de 300 mil euros, o que é bastante baixo para uma equipa profissional.
JE – Que implicações terá esta redução orçamental?
PM - O Espinho treina durante o dia e é muito complicado tentarmos contratar jogadores a pagar 700/800 euros quando eles ganham isso no seu emprego e ganham mais do que isso a treinar e a jogar no final do dia. Ainda temos um estatuto que leva alguns atletas a optarem pelo Espinho em detrimento de clubes de menor dimensão, mas esses serão sempre aqueles mais novos que ainda querem singrar no futebol. Aqueles com provas dadas têm famílias, empregos, e o Espinho só consegue ir buscar jogadores à II e à III divisões e, aí, os melhores estão seguros, porque recebem bem nos clubes e, além disso, trabalham durante o dia e treinam à noite. Portanto, está a ser muito difícil construir este plantel. A limitação em termos orçamentais é tanta, que já falei com quatro ou cinco jogadores e todos eles recusaram a vinda para o Espinho. E alguns deles até vão ficar em clubes de menor dimensão, mas vão ganhar mais dinheiro.
JE - Exemplifique?
PM - Temos casos de vizinhos nossos. Eu não consigo ir buscar jogadores ao Esmoriz nem ao Arouca. Com todo o respeito que tenho por esses clubes, o Espinho, pelo historial, é maior do que eles, mas é muito complicado. Já tentámos, mas as propostas que lhe fizemos eram inferiores aos que esses jogadores auferem no futebol e nos respectivos empregos.
JE - O orçamento baixou 50 mil euros?
PM – Exactamente.
JE - Então qual é o ideal para se tentar subir nesta divisão?
PM - Penso que as duas equipas que lutaram connosco na época passada tinham orçamentos que passavam o dobro do nosso. E a verdade é que nem uma nem outra subiram. Segundo diziam, o União da Madeira tinha um orçamento de um milhão e meio de euros, e o do Penafiel rondava os 750 mil euros. Portanto, nós não podemos competir com essas equipas. Para quem está de fora, é fácil dizer que os vencimentos não ganham jogos, mas a verdade é que permitem trazer os melhores jogadores e esse é meio caminho andado para o sucesso. Quem vem para o Espinho encontra um clube profissional, que dentro das suas limitações tenta proporcionar, em termos de treino, o melhor possível. Mas não há sucesso se não houver jogadores com qualidade. Nós vamos tê-los, mas, se calhar, sem a qualidade suficiente que nos permita lutar de igual para igual com aqueles clubes que conseguem ir buscar os melhores jogadores. Esses fazem a diferença no pormenor.
JE - Qual será a média de ordenados do Espinho?
PM - Vamos ter 300 mil euros de orçamento e terei uma média de 250 mil euros para salários, o que dará uma média de 700 e qualquer coisa euros de salários por jogador.
JE - É por tudo isto que o Espinho só tem um reforço [André Maia, ex-Lourosa] nesta altura?
PM - Exactamente. Não vamos abrir mão de cumprir com o orçamento, porque queremos continuar a ser um clube cumpridor. Perdemos alguns patrocínios e o futebol está a sentir isso na pele. O futebol do Espinho está a pagar a crise do clube. Assim sendo, resta-me lutar por construir o melhor plantel possível, que dignifique a grandeza deste clube, mas sem grandes aspirações, porque isso não é possível. Já estou há alguns anos no Espinho, conheço o departamento de futebol melhor do que ninguém e sei o que é preciso para subir de divisão. É preciso muito mais e começo a ficar um bocado cansado, porque ando à espera, ano após ano, que o futebol volte a ser a aposta da cidade. É com muito mágoa que eu vejo que não é. Se calhar, é a vontade de algumas pessoas que possivelmente ainda querem ver isto pior. Mas, enquanto eu tiver força, vou lutar.
JE - Mas que pessoas são essas?
PM - Muitas pessoas e nós vemos como é que futebol do Espinho estava há dez anos e como está agora. Tenho a noção que, se houvesse muito dinheiro para fazer grandes plantéis, não era eu que estava à frente do departamento de futebol. Tenho essa noção, porque, se houvesse muito dinheiro, não iam faltar pessoas disponíveis. É muito complicado gerir um departamento de futebol com muito pouco dinheiro. Ao estar aqui, prejudico a minha vida pessoal e profissional pelo amor que tenho ao clube e a este departamento. Mas começo a achar que só eu quero o bem do departamento. Contudo, ainda tenho algumas forças e, enquanto elas durarem, irei lutar para que este departamento singre.
JE – Mas essas pessoas são de fora ou de dentro do clube?
PM- Há de fora e de dentro claramente. Não vou entrar em polémicas, mas está na altura de as pessoas dizerem que vamos, seja neste ou no próximo ano, tentar colocar o clube onde ele, pelo historial, deve estar, que é, no mínimo, na II Liga. Mas, para isso, não basta o Paulo Mendes lutar sozinho. Precisamos de muito mais gente, precisamos de muitos mais apoios, mas eles não aparecem. As pessoas estão claramente divorciadas do clube e do futebol.
JE – Quais são as razões do divórcio com o clube e o futebol?
PM - Se calhar, posso ter a minha quota parte de culpa, porque dou a cara. Se calhar, o departamento devia ter mais gente, porque durante toda a época, por exemplo, os jogadores só me viam a mim. Não havia mais ninguém. A Direcção só tinha o Paulo Mendes. O presidente aparecia de vez em quando, mas ele também está a unir todas as suas forças no processo de construção do novo estádio, o que lhe rouba bastante tempo, mas a verdade é que mais ninguém cá põe os pés. E os jogadores sentiram essa ausência claramente. Nós fomos ao União da Madeira, ao Penafiel e a outros clubes que tinham sempre muita gente do que o Espinho: directores e amigos do clube que vinham juntamente com o plantel. Houve muitos jogos este ano em que nós só tínhamos quatro ou cinco elementos da claque e mais ninguém. À excepção de mim, não havia nenhum director a ver um jogo do Espinho. E não eram jogos distantes, porque alguns não o eram. Houve jogos a meia dúzia de quilómetros de Espinho e não havia um dirigente. E é nisto que me baseio quando digo que falta qualquer coisa ao clube para se apostar numa subida de divisão.
JE - A que se deve essa desunião?
PM - Não sei, se calhar porque o meu lugar é apetecível. Estou aqui porque me convidaram. Não exigi nada a ninguém para estar no clube. Já quis sair, mais do que uma vez, mas as pessoas pediram-me bastante para continuar. Mas a vida lá fora não está fácil. Na minha vida profissional, tenho clientes a fecharem portas por falência, semana após semana, e se até aqui eu tinha que trabalhar oito horas por dias, hoje tenho de trabalhar dez ou 12 para que nada falta à minha família. Além disso, não posso faltar no departamento, porque sei que quando saio não fica cá ninguém. Queríamos ver cá muita gente e os jogadores querem isso até mais do que eu, porque eles têm que sentir que o clube é um só e quer subir de divisão. Nós queremos subir de divisão, mas não queremos a qualquer custo, mas ninguém aparece, ninguém vai aos jogos fora e poucos aparecem aos jogos em casa. Eles têm a vida deles, mas eu também tenho. Prejudico a minha para estar aqui e, se houvesse mais gente a vir e se dividíssemos as tarefas, sentia-me mais à-vontade quando saio. Quando não estou cá, só o secretário-técnico [Miguel Bruno] vai resolvendo os problemas que surgem. Eu não tenho poder reivindicativo dentro do balneário se nós lá fora não mostrarmos que queremos subir. Na época passada, fui dez, 15, 20 vezes ao balneário falar com os jogadores, tentar motivá-los, mas a verdade é que foi sempre o mesmo e a imagem começa a desgastar-se.
JE – Espera que isso se altere?
PM – Se calhar, esta entrevista é a primeira que estou a dar nestes termos em sete anos, mas espero que sirva para abrir os olhos às pessoas. Alguns vão dizer que querem ajudar, mas isso é tudo tanga. Quem quer ajudar, vem com o intuito de ajudar, sem pedras na mão. Quero que as pessoas apareçam nos bons e nos maus momentos e há alguns que só aparecem nos maus. O problema é esse e isso deixa-me muito preocupado.