Ora, as novas oportunidades (refiro-me naturalmente ao Programa de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, mais conhecido por RVCC) permitem que se faça em poucos meses aquilo que outros demoraram anos a concluir. Em pouco tempo um cidadão sem estudos pode ficar com as mesmas hibilitações de qualquer outro que andou na escola pelo menos 12 anos para concluir o 12.º ano.
Pergunta-se: Será que adquiriram o mesmo nível de conhecimento? Têm a mesma agilidade intelectual? Estão tão bem preparados para o mercado de trabalho como aqueles que concluiram o normal percurso escolar? Os empresários aceitam tão bem uns como outros? Não será isto também uma injustiça? Como se sentem os pais que tanto sacrifício fizeram para patrocinar os filhos na escola durante tanto tempo? E como se sentem os filhos que tiveram de estudar tanto para agora terem o mesmo nível académico dos alunos reconhecidos pelo RVCC?
A recompensa de tudo isto está, de facto, na vida real. Os empresários já perceberam que a competitividade dos negócios não permite deslizes e não se compadece com estatísticas ou programas criados à mercê da necessidade política e sem qualquer tipo de rigor científico. Sendo assim, qualquer empresa que queira evoluir mais rapidamente e apresentar objectivos mais positivos opta, naturalmente, por aqueles que estão mais bem preparados para responder às exigências desta economia, cada vez mais capitalista.
É por estas e por outras que conheço cada vez mais desempregados que têm grau académico mas falta-lhes o conhecimento e o rigor da ciência. A situação alimenta um fosso social que vai dividir uns dos outros. Uns serão priveligiados em detrimento de outros.
Vem isto a propósito da nossa terra que é tantas vezes criticada pela falta de dinamização dos mais variados sectores. Mas não se pode criticar quem não tem obrigação de fazer mais e melhor. Temos de ser compreensivos, porque nem todos são médicos, doutores ou engenheiros. Muitos deles nem o secundário terminaram! Mesmo assim são presidentes de câmara, vereadores ou assessores. Quantas vezes ganham eleições pessoas com boa retórica, mas sem os devidos conhecimentos académicos. Nestas coisas, como em tudo na vida, cada um dá o que têm. Quem não sabe semear, não poderá colher e quem não colhe não tem para dar. Não podemos pedir a um trolha que seja carpinteiro e a um comerciante falido e desleixado que seja um empreendedor de sucesso. Tal como no jornalismo, quem não é jornalista não pode exercer a profissão. Para alguns, peseu-comerciantes de papel mata-borrão, escrever no “livro dos calotes” já é fazer um jornal. A esses nós chamamos jornaleiros e aconselhamos, de facto, a fazer o tão recomendado RVCC. Pelo menos ganham mais alguns conhecimentos, conhecimentos que , no caso da nossa terra, bem precisamos. O povo deve estar a tento a isto, porque a nossa qualidade de vida depende da competência de quem se candidata e de quem o povo escolhe. Por isso o povo deve pensar bem, fazer uma reflecção séria e isenta e votar em consciência. Para as autarquias não é importante o partido, mas sim a obra que se apresenta ou a capacidade de a fazer. Temos de olhar para trás e pensar se queremos continuar como está ou se pretendemos melhor do que o que está. O poder está na nossa mão, na mão do povo soberano que exerce o sentido de voto. Não podemos trocar competência por popularidade e depois ficarmos acomodados à mediocridade quando poderiamos ter excelente. É por isso que em vez de progredir, muitas vezes, alguns casos nos fazem regredir e o povo assiste a tudo isto impávido e sereno. Coragem precisa-se.
Quantas vezes conhecemos oportunistas que trocam causas por “tostões” e se aproveitam da fragilidade social para fazer falsas promessas e atingir objectivos pessoais.
Estamos muito próximo das eleições. Cabe a nós, livres cidadãos, saber distinguir as verdadeiras das falsas promessas. Basta ler os programas e votar em consciência. Não se limitem a votar pela oferta da camisola ou boné. A isso chama-se a compra do voto.
Termino com uma frase do filósofo Pascal: “É mau nós sermos ignorantes, mas é pior ainda saber que somos ignorantes e continuarmos a viver na ignorância”. É por estas e por outras que, apesar de tudo, aconselho mesmo os “faltosos” a fazerem o RVCC, que, para estes casos, é de facto uma "Nova Oportunidade"!
José António Moreira
Director
Jornal de Espinho